poemas e outras coisas com asas

... é isso, poemas e outras coisas que, por terem asas, às vezes voam, e às vezes, vêm pousar aqui.

quarta-feira, agosto 09, 2006

da leveza e de ilhas


Leveza…
A do corpo, olhando as Cíes, parecidas com duas mulheres;
A Sul, de costas para onde o mar se alarga e deixa de ser ria,
a mulher que fui, quiçá dorida ainda; não dos voos negros
de marinhos corvos, que o seio lhe arranhavam ao buscar,
mais fundo mergulhando, tão só o alimento – mas das mãos,
quiçá de deuses náufragos, que em bem mais negras buscas
de se erguerem do vislumbrado abismo, toda a pele dos flancos
e mais lhe arrancavam, a ela se aferrando em desespero.
A Norte, a mulher que serei, virado o seio nu ao mar aberto
e os flancos albergando a alvura das asas das gaivotas
em repouso breve e canto que se ergue já no céu da ria,
antes do voo.

Leveza…
A da alma da mulher que sou; os pés na terra que não é areia
mas que ao aroma forte de robles e pinheiros une, das algas,
o cheiro e o sal, inigualáveis; no seio, tão só o ar que o enche;
e os flancos, esses, quiçá a angra, mansa, na espera da volta
de encapeladas descobertas; enquanto, como as ondas
para lá da ria, no canto do vento se lhe erguem os cabelos negros
e os olhos vão pairando, no céu claro, sobre as Cíes.


© 2006 Alexandra* ~ OneLight*®

(originalmente publicado e assinado pela minha personagem - que não heterónimo - Paula Paixão Botelho "pedramares")

(fotografia das ilhas Cíes - J. Albertos)