poemas e outras coisas com asas

... é isso, poemas e outras coisas que, por terem asas, às vezes voam, e às vezes, vêm pousar aqui.

quarta-feira, agosto 16, 2006

O REPOUSO DA ÁGUA


por areia, pedra, acidentais asperezas, íngremes vertentes
e açudes, fugazes suspensões que logo se me fazem catadupa
de um curso que o leito jamais prende. de branduras a espaços
onde as margens me vão juncando de afagos o reflexo, em cabelos
alagados, soltos, dos salgueiros, e sombras, redondas, como beijos
molhados que a luz me vá vertendo de lábios abertos nas folhas.

deriva-me o corpo por volúpias em delta, a breves trechos, e cingem-no
as pernas, os braços, e o mais do solo, que, em fusão de fim e de princípio
nem sinopse nem obra absoluta, me penetra e cala fundo - e nele
entranho-me eu.

de paixões, de cheias, de salpicos, de sinuosidades em que volto –
ou me confluem – à força ou alma da nascente.

jamais de seca, e menos de vazio, ainda que seja bravo o fogo da estiagem;
porque, no mesmo fogo, bebo o fundamento das sedes por que fluo
e vou, ardentemente, saciando.

de gelo, endurecida, nunca a mais longa, agreste invernia me fará senda;
antes, temperada deste fulgor que não sei de onde me vem,
talvez de luares ou sóis que em mim vão derramando as noites e as brumas,
guiarei, calidamente, do frio os desalentos, e do vento, os arrepios
e os queixumes, ao meu seio.

lanço-me então, caudal revolto, além da barra, num mar vasto que se cava
como num desejo; com ele me deito e amamo-nos em marés, bramindo
ou sussurrando, do abismo à vaga erecta, num só eco, um só orgasmo.

e é esse epílogo, insondável, denso, que no entanto, tão diáfano
como espuma, me reflui no que não é senão prelúdio de ser de novo
água; apenas água que, embora não chegue a exaurir-se inteiramente,
noutro corpo com a essência de si mesma se consuma,
e com mais sal, languidamente estendida numa praia,
enfim, repousa.


© 2006 Alexandra* ~ OneLight*®

(ilustração de Jim Warren)