PALAVRAS COMO PEIXES

“Y escribe como escriben las olas en la arena,
el viento en la laguna y en la neblina el sol.” – Rosalía de Castro
Repara que nas palmas trago ainda escamas
quando as passo, bem abertas, no sal dos lábios;
é o que ficou do que encheu a maré vaza, e dos peixes
que devolvi à onda, como quem retorna, ao largo e à vida
palavras demasiado miúdas, para que cresçam e justamente
vivam, e dêem, às redes, essa luta que se quer, ela própria
viva e justa.
Hão-de rompê-las, a essas redes, as minhas palavras
peixes, e mesmo à malha grossa que os serões teceram
em silêncios cavos, e eu ajudei, valha a verdade à luz
frouxa do candeio, quase sombra, a remendar.
E hão-de estender-se, justas e vivas, quando na praia
se erguerem os remos para que a luta, enfim, lhes durma
na sombra ao deitar-se a tarde sem que repouse a fome.
Entretanto, reparo que és lindo, mais lindo que a tarde
na sombra dos remos ao deitar-se a luta; e passo os lábios
bem abertos nessa fome sem repouso; trago ainda
na língua sal da onda que vazaste noutra maré-cheia
quando eu remendava, na luz frouxa (ou outra sombra)
a malha grossa de silêncios cavos.
E o que se abre e rompe, de repente, é todo o mar nas palmas;
repara, pelas escamas novas, no que te ofereço agora:
as palavras que o tempo dado, ao largo, fez crescer
e que pesquei, enfim, varada a barra (fome e luta)
frescas e vivas, ou justas, apenas.
Além do sal, temperadas só de algas, que a onda
(aquela onda) devolveu, como quem retorna plenitude à praia
fazendo-a, na tarde que se deita, ainda mais linda.
(Repousamos, já… ou, nos lábios, não?)
© 2006 Alexandra* ~ OneLight*® (como Paula Paixão “pedramares”)
(poster de Wieslaw Rosocha)

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