Do Tempo e das Horas

Do tempo, fogem certas horas
muito magras, arrepiadas na sua contrição
de serem transgressoras nuas
sem a ousadia dos instantes
que resvalam quebrantos e sedas
por divãs de calma, ainda quentes
em cada dobra lânguida, de todo
um despertar aberto sem fechar
o sonho.
Prendem-no, ao tempo
certas outras horas, balofas
entre seios pendentes de cevarem
constâncias de serem adiadas, e barrigas
estriadas de momentos profusos
e paridos, que nunca soltos
ou deveras vivos, no enredo
de cordões, em torno do ar
puxados rentes, e jamais cortados.
E há horas, muitas outras horas
várias de cor, e também de cegueira
de desesperança, pavor, desejos de chegada
em barcos furados de partida, e marinhos voos
de ave que perdeu o canto rouco
na surdez do vento e num ápice
varrendo de esquecimento a areia amontoada
numa ampulheta qualquer.
Com essas, seguem, espiriformes
outras ainda, que se atardam e aturdem
no inerte movimento do seu eterno paradoxo
que lhes extingue a dança, e no entanto
é delas, no tempo, pirueta gelada, ou talvez pétrea
que o palco asila, em sombras de aplauso
de solidárias luzes, há muito apagadas.
E, de nunca, virá sempre aquela hora
em que o tempo se encontra
aquele tempo em que se perde a mesma hora
e onde nenhum precisa de cessar o abraço
para entrelaçar certos enleios, inatos, fatais
do ardente repouso em que o outro se entrega
para orgasmo e sagração de ambos. Plenitude
e gostosamente sangrados infinitos
que assim se geram, sem pejo e toda a honra
humilde e magnânima
de se ser, na hora inerente ao tempo puro
universo e deus.
© 2005 / 2006 Alexandra* ~ OneLight*®
(quadro de Cruzeiro Seixas)

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