poemas e outras coisas com asas

... é isso, poemas e outras coisas que, por terem asas, às vezes voam, e às vezes, vêm pousar aqui.

quinta-feira, agosto 31, 2006

Do Tempo e das Horas


Do tempo, fogem certas horas
muito magras, arrepiadas na sua contrição
de serem transgressoras nuas
sem a ousadia dos instantes
que resvalam quebrantos e sedas
por divãs de calma, ainda quentes
em cada dobra lânguida, de todo
um despertar aberto sem fechar
o sonho.

Prendem-no, ao tempo
certas outras horas, balofas
entre seios pendentes de cevarem
constâncias de serem adiadas, e barrigas
estriadas de momentos profusos
e paridos, que nunca soltos
ou deveras vivos, no enredo
de cordões, em torno do ar
puxados rentes, e jamais cortados.

E há horas, muitas outras horas
várias de cor, e também de cegueira
de desesperança, pavor, desejos de chegada
em barcos furados de partida, e marinhos voos
de ave que perdeu o canto rouco
na surdez do vento e num ápice
varrendo de esquecimento a areia amontoada
numa ampulheta qualquer.

Com essas, seguem, espiriformes
outras ainda, que se atardam e aturdem
no inerte movimento do seu eterno paradoxo
que lhes extingue a dança, e no entanto
é delas, no tempo, pirueta gelada, ou talvez pétrea
que o palco asila, em sombras de aplauso
de solidárias luzes, há muito apagadas.

E, de nunca, virá sempre aquela hora
em que o tempo se encontra
aquele tempo em que se perde a mesma hora
e onde nenhum precisa de cessar o abraço
para entrelaçar certos enleios, inatos, fatais
do ardente repouso em que o outro se entrega
para orgasmo e sagração de ambos. Plenitude
e gostosamente sangrados infinitos
que assim se geram, sem pejo e toda a honra
humilde e magnânima
de se ser, na hora inerente ao tempo puro
universo e deus.


© 2005 / 2006 Alexandra* ~ OneLight*®

(quadro de Cruzeiro Seixas)